quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012


Nome:_____________________________________________
Nº:________    Turma:____________











Orientações importantes sobre os procedimentos relativos ao trabalho com esta apostila:
1)    Esta apostila deverá ser colada no caderno de Sociologia (com as respostas desenvolvidas) para as turmas de D a P e as turmas de A a C devem trazer a apostila “solta” com as respostas desenvolvidas na própria apostila no dia do aulão. As respostas das questões deverão estar a lápis.
2)    Entre os dias 23 de fevereiro a 02 de março (de acordo com a tabela abaixo) você deverá vir ao auditório no período matutino (de 8h às 11h) com o caderno de Sociologia (D a P) ou a apostila (A a C), com todas as questões respondidas. O caderno e a apostila, com as questões resolvidas, funcionarão como um “ingresso” para garantir sua entrada no auditório, onde cada questão será debatida por um grupo de professores de forma multidisciplinar.


ANOTAÇÃO PESSOAL:


Data do Aulão da sua turma: ___________
Dia da semana: ____________
Horário: 8h às 11h


SOCIEDADE E LINGUAGEM
Estudo Multidisciplinar (Língua Portuguesa/Sociologia)
             Os estudos realizados durante as primeiras semanas de aula nas disciplinas de Língua Portuguesa e Sociologia nos remetem a uma profunda reflexão sobre o papel da comunicação nas relações humanas. Diferentemente dos outros animais (seres naturais), os seres humanos são seres sociais, isto é, dependem do outro para aprenderem a se comportar como humanos. Nesse sentido a linguagem assume uma importância distinta entre nós e os animais. Um cachorro se comportará sempre como cachorro, independentemente do meio em que ele estiver inserido. Não importa se após o seu nascimento for criado por humanos ou macacos. Seu comportamento se guiará pelos seus instintos. Um bebê humano, criado por um grupo de cães ou grupo de macacos, assumirá o comportamento desses animais, inclusive assimilando os recursos de linguagens que esses animais utilizam. Enquanto para os animais a linguagem é instintiva e fundamentalmente voltada à sobrevivência da espécie, assumindo um caráter de sociabilidade, para os seres humanos a linguagem assume um papel fundamental em seu processo de socialização.
    Sem linguagem, não há ser humano. Para entendermos a relação do indivíduo com a sociedade, é importante lembrar que a linguagem reúne todos os recursos que nos possibilita a transmissão de ideias, sentimentos e emoções. A língua é um tipo de linguagem, exclusivamente humana, elaborada pelo grupo social e determinada pela cultura desse grupo. O “encontro “ das disciplinas de Sociologia e Língua Portuguesa acontece concretamente, pois os processos de construção das palavras de uma língua envolvem os costumes, as tradições, as relações desse grupo humano com a natureza, etc. Quando cada indivíduo do grupo usa a língua, ele realiza o processo da fala. Como não somos todos iguais, cada um tem a liberdade para selecionar os elementos da língua e usá-los de acordo com as influências que o meio exerce sobre cada indivíduo. É importante ressaltar que, especialmente no Brasil, a “liberdade” do uso da língua está vinculada a uma estrutura de poder que considera, de forma etnocêntrica, o padrão da norma culta como correto, desvalorizando as várias possibilidades de uso da língua  que são válidas e necessárias, como, por exemplo, o que ocorre no primeiro texto apresentado nesse estudo.
    As crônicas, imagens, fotografias e poemas aqui reunidas têm o objetivo de apresentar situações capazes de comprovar que os conceitos  teóricos (estudados nas disciplinas de Língua Portuguesa e Sociologia) podem se transformar em  algo concreto, exemplificado por meio de textos verbais, não-verbais, cômicos, trágicos.


Anotações pessoais sobre a introdução:
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NÓIS MUDEMO
(Fidêncio Bogo)


    O ônibus da Transbrasiliana deslizava manso pela Belém-Brasília rumo a Porto Nacional.  Era abril, mês das derradeiras chuvas. No céu, uma luazona enorme pra namorado nenhum botar defeito. Sob o luar generoso, o cerrado verdejante era um presépio, todo poesia e misticismo. Mas minha alma estava profundamente amargurada. O encontro daquela tarde, a visão daquele jovem marcado pelo sofrimento, precocemente envelhecido, a crua recordação de um episódio que parecia tão banal. Tentei dormir. Inútil. Meus olhos percorriam a paisagem enluarada, mas ela nada mais era para mim que o pano de fundo de um drama estúpido e trágico. As aulas tinham começado numa segunda-feira. Escola de periferia. Entre eles, uma criança crescida, quase um rapaz.
    – Por que você faltou esses dias todos?
    – É que nóis mudemo onti, fessora. Nóis veio da fazenda.
Risadinhas da turma.
    – Não se diz "nóis mudemo", menino! A gente deve dizer: nós mudamos, tá?
    – Tá, fessora!
    No recreio, as chacotas dos colegas:
    – Oi, nóis mudemo! Até amanhã, nóis mudemo!
    No dia seguinte, a mesma coisa: risadinhas, cochichos, gozações.
    – Pai, não vô, mais pra escola!
    – Oxente! Módi quê?
Ouvida a história, o pai coçou a cabeça e disse:
    – Meu fio num deixa a escola por uma bobagem dessa! Não liga pras gozações da mininada! Logo eles esquece.
    Não esqueceram. Na quarta-feira, dei pela falta do menino. Ele não apareceu no resto da semana, nem na segunda-feira seguinte. Aí me dei conta de que eu nem sabia o nome dele. Procurei no diário de classe e soube que se chamava Lúcio. Lúcio Rodrigues Barbosa. Achei o endereço. Longe, um dos últimos casebres do bairro. Fui lá, uma tarde. O rapazola tinha partido no dia anterior para a casa de um tio, no sul do Pará.
    – É, professora, meu fio não aguentou as gozação da mininada. Eu tentei fazê ele continuá, mas não teve jeito. Ele tava chatiado demais. Bosta de vida! Eu devia di té ficado na fazenda côa famia. Na cidade nóis não tem veis. Nóis fala tudo errado.
Inexperiente, confusa, sem saber o que dizer, engoli em seco e me despedi. O episódio ocorrera há dezessete anos e tinha caído em total esquecimento, ao menos de minha parte. Uma tarde, num povoado à beira da Belém-Brasília, eu ia pegar o ônibus, quando alguém me chamou. Olhei e vi, acenando para mim, um rapaz pobremente vestido, magro, com aparência doentia.
– O que é, moço? 
– A senhora não se lembra de mim, fessora?
Olhei para ele, dei tratos à bola.
Reconstituí num momento meus longos anos de sacerdócio, digo, de magistério. Tudo escuro.
– Não me lembro não, moço. Você me conhece? De onde? Foi meu aluno? Como se chama? Para tantas perguntas, uma resposta lacônica:
– Eu sou "Nóis mudemo", lembra?
Comecei a tremer.
– Sim, moço. Agora lembro, Como era mesmo seu nome?
– Lúcio.
– Lúcio Rodrigues Barbosa. O que aconteceu com você?
– O que aconteceu? Ah! fessora! É mais fácil dizê o que não aconteceu. Comi  o pão que o diabo amassô. E eta diabo bom de padaria! Fui garimpeiro, fui bóia fria, um "gato" me arrecadou e levou num caminhão pruma fazenda no meio da mata. Lá trabaiei como escravo, passei fome, fui baleado quando consegui fugi. Peguei tudo quanto é doença. Até na cadeia já fui pará. Nóis ignorante às veis fais coisa sem querê fazê. A escola fais uma farta danada. Eu não devia de té saído daquele jeito, fessora, mas não aguentei as gozação da turma. Eu vi logo que nunca ia consegui fala direito. Ainda hoje não sei.
Meu Deus! Aquela revelação me virou pelo avesso. Foi demais para mim. Descontrolada comecei a soluçar convulsivamente. Como eu podia ter sido tão burra e má? E abracei o rapaz, o que restava do rapaz, que me olhava atarantado. O ônibus buzinou com insistência.
– O rapaz afastou-me de si suavemente.
– Chora não, fessora! A senhora não tem curpa.
Como? Eu não tenho culpa? Deus do céu! Entrei no ônibus apinhado. Cem olhos eram cem flechas vingadoras apontadas para mim. O ônibus partiu. Pensei na minha sala de aula. Eu era uma assassina a caminho da guilhotina. Hoje tenho raiva da gramática. Eu mudo, tu mudas, ele muda, nós mudamos, mudamos, mudaamoos, mudaaamooos... Superusada, mal usada, abusada, ela é uma guilhotina dentro da escola. A gramática faz gato e sapato da língua materna, a língua que a criança aprendeu com seus pais e irmãos e colegas – e se torna o terror dos alunos. Em vez de estimular e fazer crescer, comunicando, ela reprime e oprime, cobrando centenas de regrinhas estúpidas para aquela idade. E os lúcios da vida, os milhares de lúcios da periferia e do interior, barrados nas salas de aula: "Não é assim que se diz, menino!" Como se o professor quisesse dizer: "Você está errado! Os seus pais estão errados! Seus irmãos e amigos e vizinhos estão errados! A certa sou eu! Imite-me! Copie-me! Fale como eu ! Você não seja você! Renegue suas raízes! Diminua-se! Desfigure-se! Fique no seu lugar! Seja uma sombra!" E siga desarmado para o matadouro.






                       
MONSTRO
    (Júlio Emílo Braz)   


     Ele o viu logo ao abrir a porta. Recuou, horrorizado ao reconhecer a boca torcida numa careta de espanto e pavor.
    Um monstro...
    A palavra lhe veio à mente de maneira natural e foi crescendo, materializando-se numa espécie de entidade sobrenatural e apavorante à medida que se aproximava, fazendo seu corpo tremer sem parar.
    Pensou que ia cair. Quis correr. Quis dizer alguma coisa. Chamar pela mãe. Fazer algo que não fosse ficar ali parado, vendo-o tomar conta de seus sentimentos e de seus atos, da criaturinha acovardada em que ia se transformando.
    Escravo do medo, presa fácil daquela sombra que avançava de maneira claudicante em sua direção. Quis correr. Recuou um passo após o outro.
    Lágrimas ameaçaram aparecer em seus olhos. Não foi fácil enfrentá-las, resistir a elas, segurá-las e, por fim, derrotá-las. Seria pior ser ele o surpreendesse chorando. Lágrimas sempre o irritaram e faziam com que o golpeasse com mais violência.
    Esperou que alguém aparecesse ou que sua mãe se colocasse mais uma vez entre ele e aquele monstro que avançava, crescia e grunhia impaciência e raiva – uma raiva desconhecida e injustificada – contra ele.
    Ninguém apareceu. No entanto, sabia que estavam por ali, em algum lugar. Esconderam-se , como ele certamente teria feito se tivesse sido mais rápido.
    Precisou encará-lo, os olhos arregalados, coração batendo cada vez mais forte. O cheiro de álcool invadiu as narinas, queimando, ardendo, assustando ainda mais.
    Estava bêbado. Mais uma vez, bêbado. Mais uma vez, bêbado e enfurecido por alguma razão que não conseguia compreender.
    Ele recuou e procurou fugir.
    Do monstro.
    Do seu hálito corrosivo.
    Daquela bebida que o envenenava lentamente e destroçava tudo o que ele tinha de melhor.
    Quando o monstro finalmente ergueu a mão e o xingou, o menino pensou em muitas coisas – falar, repetir, implorar... no entanto só conseguiu dizer:
    - Não me bate, não pai!
    Apanhou como sempre.






MAU  DO CORAÇÃO
(Júlio Emílo Braz)


Parou o carro no sinal e o viu sentado no meio-fio. As costas apoiadas num poste velho e enferrujado, rosto infeliz, vencido, os olhos fundos nas pálpebras escuras. Lábios secos. Barba por fazer. Cansaço. Sorriu, e o velho sorriu de volta. Uma centelha de esperança no olhar que denunciava uma expectativa muito antiga e, acima de tudo, muito firme.
    Tornou a sorrir, incentivando-o. Tirou uma nota de dez e exibiu. Novinha. Visível. Guardou-a e tirou outra do bolso, um valor ainda maior. Uma nota de vinte. Sorriu para o velho e a exibiu, convidativo, amistoso. Solidário. Sacudiu-a para que a visse e gesticulou para que se aproximasse.
    O velho observou-o por uns instantes, o interesse cedendo espaço para um compreensivo temor.
    Vinte reais...
    Era demais até para o mais caridoso dos corações. Aproximava-se mais da loucura que da generosidade.
    O motorista agitou a nota impacientemente e olhou para o sinal ainda vermelho. “Vai abrir”, parecia avisar enquanto agitava a nota novinha.
    O interesse foi mais forte e, por fim, venceu a desconfiança. O velho se aproximou, ziguezagueando entre os carros, mãos estendidas, apressado. O sorriso alargou-se, luminoso, em seus lábios.  Apresentou-o  agradecido ao desconhecido que sorria e segurava a nota de vinte. Virou-se para o sinal e desesperou-se, temendo que abrisse a qualquer momento. Tornou a estender a mão.
    -Obr... – principiou, a frase mal nascendo em seus lábios, quando o desconhecido puxou a nota e a guardou no bolso, a perversidade estampada no rosto.
    O sinal abriu em seguida. O desconhecido ainda se divertia com a perplexidade no rosto do velho quando se afastou, sumindo na confusão de carros, ônibus e caminhões.
    O velho, parado no meio da rua, no asfalto quente de um meio-dia qualquer de janeiro, esperando, esperando, esperando...










PARA QUE NINGUÉM A QUISSESSE
(Marina Colassanti)
       Porque os homens olhavam demais para a sua mulher, mandou que descesse a bainha dos vestidos e parasse de se pintar. Apesar disso, sua beleza chamava a atenção, e ele foi obrigado a exigir que eliminasse os decotes, jogasse fora os sapatos de saltos altos. Dos armários tirou as roupas de seda, da gaveta tirou todas as joias. E vendo que, ainda assim, um ou outro olhar viril se acendia à passagem dela, pegou a tesoura e tosqueou-lhe os longos cabelos.
        Agora podia viver descansado. Ninguém a olhava duas vezes, homem nenhum se interessava por ela. Esquiva como um gato, não mais atravessava praças. E evitava sair.
       Tão esquiva se fez, que ele foi deixando de ocupar-se dela, permitindo que fluísse em silêncio pelos cômodos, mimetizada com os móveis e as sombras.
       Uma fina saudade, porém, começou a alinhavar-se em seus dias. Não saudade da mulher. Mas do desejo inflamado que tivera por ela.
       Então lhe trouxe um batom. No outro dia um corte de seda. À noite tirou do bolso uma rosa de cetim para enfeitar-lhe o que restava dos cabelos.
       Mas ela tinha desaprendido a gostar dessas coisas, nem pensava mais em lhe agradar. Largou o tecido numa gaveta, esqueceu o batom. E continuou andando pela casa de vestido de chita, enquanto a rosa desbotava sobre a cômoda.


                                                                                                                                           
VOCABULÁRIO
Chita: tecido ordinário de algodão;
Esquivo: que rejeita carinhos e conversas;
Mimetizado: camuflado, adaptado e fundido ao meio ambiente;
Tosquiar: cortar rente;
Viril: próprio do homem, vigoroso.






JÁ NÃO SE FAZEM PAIS COMO ANTIGAMENTE
(Lourenço Diaféria)


        A grande caixa foi descarregada do caminhão com cuidado. De um lado estava assim: "Frágil". Do outro lado estava escrito "Este lado para cima". Parecia embalagem de geladeira, e o garoto pensou que fosse mesmo uma geladeira. Foi colocada na sala, onde permaneceu o dia  inteiro.    
    À noitinha a mãe chegou, viu a caixa, mostrou-se satisfeita, dando a impressão, que já esperava a entrega do volume.
    O menino quis saber o que era se podia abrir. A mãe pediu paciência, no dia seguinte viriam os técnicos para instalar o aparelho. O equipamento, corrigiu ela, meio sem graça.
    Era um equipamento. Não fosse tão largo e alto, podia-se imaginar um conjunto de som, talvez  um sintetizador. A curiosidade aumentava. À noite o menino sonhou com a caixa fechada.
    Os técnicos chegaram cedo, de macacão. Eram dois. Desparafusaram as madeiras, juntaram as peças brilhantes umas às outras, em meia hora instalaram o boneco, que não era maior do que um homem de estatura mediana.  O filho espiava pela fresta da porta, tenso.
    A mãe o chamou:
 - Filhinho, vem ver o papai que a mamãe trouxe.
 O filho entrou na sala, acanhado diante do artefato estranho: era um boneco, perfeitamente igual a um homem adulto. Tinha cabelos encaracolados, usava desodorante, fazia a barba com gilete ou aparelho elétrico, sorria, bebia uísque, roncava, assobiava, tossia, piscava os olhos – às vezes um de cada vez – assoava o nariz, abotoava o paletó jogava tênis, dirigia carro, lavava  pratos, limpava a casa, tirava o pó dos móveis, acendia a chur¬rasqueira, lavava o quintal, estendia roupa,  passava a ferro, engomava camisas, e dentro do  peito tinha um disco que repetia:
 - Já fez a lição? Como vai, meu bem? Ah, estou tão cansado! Puxa, hoje tive um trabalhão dos diabos! Acho que vou ficar até mais tarde no escritório. Você precisava ver o bode que deu lá na firma! Serviço de dono-de-casa  nunca é reconhecido!
  O menino estava boquiaberto. Fazia tem¬po que sentia falta do pai, o qual havia dado no pé. Nunca se queixara, porém percebia que a mãe também necessitava de um companhei¬ro. E ali estava agora o boneco, com botões, painéis embutidos, registros, totalmente automáticos. O menino entendia agora por que a ¬mãe trabalhava o tempo todo, muitas vezes chegando bem tarde. Juntara economias, sabe lá com que sacrifícios, para comprar aquele paizão.
-Ele conta histórias, mãe?
    Os técnicos olharam o garoto com indife¬rença.
    - Esse é o modelo ZYR-14, mais indica¬do para atividades domésticas. Não conta histórias. Mas assiste à televisão. E pode ser acoplado a um dispositivo opcional, que permite longas caminhadas a campos de fute¬bol. Sabendo manejá-lo, sem forçar, tem ga¬rantia para suportar crianças até seis anos. Porém, não conta histórias, e não convém in¬sistir, pode desgastar o circuito do monitor.
 O garoto se decepcionou um pouco, sem demonstrar isso à mãe, que parecia encantada.
  Ligado à tomada elétrica (funcionava também com bateria), o equipamento paterno já havia colocado os chinelos e, sem dizer uma palavra, foi até à mesa e apanhou o jornal.
  A mãe puxou o filho pelo braço:
  - Agora vem, filhinho. Vamos lá para dentro, deixa teu pai descansar.


CONVERSA MINEIRA
(Fernando Sabino)


― É bom mesmo o cafezinho daqui, meu amigo?
― Sei dizer não senhor: não tomo café.
― Você é dono do café, não sabe dizer?
― Ninguém tem reclamado dele não senhor.
― Então me dá café com leite, pão e manteiga.
― Café com leite só se for sem leite.
― Não tem leite?
― Hoje, não senhor.
― Por que hoje não?
― Porque hoje o leiteiro não veio.
― Ontem ele veio?
― Ontem não.
― Quando é que ele vem?
― Tem dia certo não senhor. Às vezes vem, às vezes não vem. Só que no dia que devia vir em geral não vem.
― Mas ali fora está escrito "Leiteria"!
― Ah, isso está, sim senhor.
― Quando é que tem leite?
― Quando o leiteiro vem.
― Tem ali um sujeito comendo coalhada. É feita de quê?
― O quê: coalhada? Então o senhor não sabe de que é feita a coalhada?
― Está bem, você ganhou. Me traz um café com leite sem leite. Escuta uma coisa: como é que vai indo a política aqui na sua cidade?
― Sei dizer não senhor: eu não sou daqui.
― E há quanto tempo o senhor mora aqui?
― Vai para uns quinze anos. Isto é, não posso agarantir com certeza: um pouco mais, um pouco menos.
― Já dava para saber como vai indo a situação, não acha?
― Ah, o senhor fala da situação? Dizem que vai bem.
― Para que Partido?
― Para todos os Partidos, parece.
― Eu gostaria de saber quem é que vai ganhar a eleição aqui.
― Eu também gostaria. Uns falam que é um, outros falam que outro. Nessa mexida...
― E o Prefeito?
― Que é que tem o Prefeito?
― Que tal o Prefeito daqui?
― O Prefeito? É tal e qual eles falam dele.
― Que é que falam dele?
― Dele? Uai, esse trem todo que falam de tudo quanto é Prefeito.
― Você, certamente, já tem candidato.
― Quem, eu? Estou esperando as plataformas.
― Mas tem ali o retrato de um candidato dependurado na parede, que história é essa?
― Aonde, ali? Uê, gente: penduraram isso aí...


Texto extraído do livro "A Mulher do Vizinho", Editora Sabiá - Rio de Janeiro, 1962, pág. 144.


CILADA VERBAL
(Affonso Romano de Sant’anna)




Há vários modos de
matar um homem:
com o tiro, a fome
a espada
ou com a palavra
― envenenada.
Não é preciso força.
Basta que a boca solte
a frase engatilhada
e o outro morre
― na sintaxe da
Emboscada.








O MELHOR AMIGO
(Fernando Sabino)


A mãe estava na sala, costurando. O menino abriu a porta da rua, meio ressa-biado, arriscou um passo para dentro e mediu cautelosamente a distância. Como a mãe não se voltasse para vê-lo, deu uma corridinha em direção de seu quarto.
            - Meu filho? - gritou ela.
            - O que é - respondeu, com ar mais natural que lhe foi possível.
            - Que é que você está carregando aí? Como podia ter visto alguma coisa, se nem levantara a cabeça? Sentindo-se perdido, tentou ainda ganhar tempo:
             -Eu? Nada...
 - Está sim. Você entrou carregando uma coisa.
 Pronto: estava descoberto. Não adi¬antava negar - o jeito era procurar comovê-la. Veio caminhando descon¬solado até a sala, mostrou à mãe o que estava carregando:
              - Olha aí, mamãe: é um filhote... Seus olhos súplices aguardavam a decisão.
  - Um filhote? Onde é que você arranjou isso?
  - Achei na rua. Tão bonitinho, não é, mamãe?
  Sabia que não adiantava: ela já cha¬mava o filhote de isso. Insistiu ainda:
  - Deve estar com fome, olha só a ca¬rinha que ele faz.
  - Trate de levar embora esse cachor¬ro agora mesmo!
  - Ah, mamãe... - já compondo uma cara de choro.
  - Tem dez minutos para botar esse bicho na rua. Já disse que não quero ani-mais aqui em casa. Tanta coisa para cui¬dar, Deus me livre de ainda inventar uma amolação dessas.
  O menino tentou enxugar uma lá¬grima, não havia lágrima. Voltou para o quarto, emburrado: a gente também não tem nenhum direito nesta casa ¬pensava. Um dia ainda faço um estrago louco. Meu único amigo, enxotado des¬ta maneira!
 - Que diabo também, nesta casa tudo é proibido! - gritou, lá do quarto, e ficou esperando a reação da mãe.
 - Dez minutos - repetiu ela, com firmeza.
 - Todo mundo tem cachorro, só eu que não tenho.
 - Você não é todo mundo.
 - Também, de hoje em diante, eu não estudo mais, não vou mais ao colégio, não faço mais nada.
 - Veremos - limitou-se a mãe, de novo distraída com a sua costura.
 - A senhora é ruim mesmo, não tem coração.
Conhecia bem a mãe, sabia que não haveria apelo: tinha dez minutos para brincar com seu novo amigo, e depois... Ao fim de dez minutos, a voz da mãe, inexorável:
 - Vamos, chega! Leva esse cachorro embora.
 - Ah, mamãe, deixa! - choramingou ainda: - Meu melhor amigo, não tenho mais ninguém nesta vida.
 - E eu? Que bobagem é essa, você não tem sua mãe?
 - Mãe e cachorro não é a mesma coisa.
 - Deixa de conversa: obedece sua mãe.
 Ele saiu, e seus olhos prometiam vingança. A mãe chegou a se preocupar: meninos nessa idade, uma injustiça pra¬ticada e eles perdem a cabeça, um recal¬que, complexos, essa coisa toda...
 Meia hora depois, o menino voltava da rua, radiante:
 - Pronto, mamãe!
 E lhe exibia uma nota de vinte e uma de dez: havia vendido o seu melhor amigo por trinta dinheiros.
 - Eu devia ter pedido cinquenta, te¬nho certeza de que ele dava - murmu¬rou, pensativo.
QUESTIONÁRIO


1 – Incluir definições : A língua é o maior patrimônio de um povo. Ela não deveria ser usada como instrumento de discriminação social. Na Crônica “Nóis mudemo” a relação LÍNGUA X FALA acaba determinando um tipo de interação entre Lúcio e os outros alunos. Explique:


a) Como essa relação LÌNGUA x FALA está associada ao processo de socialização de Lúcio?
b) Por que a situação apresentada na crônica jamais aconteceria na natureza?
c) Qual deveria ter sido o papel da professora na história de Lúcio? Se abolíssemos totalmente as regras gramaticais, tornaríamos mais fácil a comunicação entre os brasileiros?


2- O texto “Já não se fazem mais pais como antigamente” apresenta uma situação muito comum nas famílias atuais. Analise:
a)    A pergunta do garoto “Ele conta história?” é fundamental para estabelecer a diferença entre um pai humano e um robô. Por que essa pergunta é tão importante? A que processo social (sociabilidade ou socialização) o ato de contar histórias está relacionado? Explique.
b)    Por que as reações da mãe e do filho são diferentes com a chegada do novo pai?




03- Considerando os estudos sobre ética e moral, faça uma análise dos comportamentos do menino e de sua mãe ao longo da história “O melhor amigo” e explique por que neste caso a amizade cedeu à tentação do dinheiro? Isso é comum na sociedade atual?


04) No início do  texto “Monstro” é criada a imagem de uma figura ameaçadora.
a) A associação entre a imagem de um monstro e a figura paterna é adequada?
b) Existe alguma regra moral sendo ferida no texto?
c) O que você acha que levou o pai do menino a agir como um monstro? Justifique.


05) A partir do texto  “Mau do coração”:
a) Quais razões levaram o autor a dar esse título ao texto?
b) Existem dilemas éticos? Identifique-os.
c) Existem dilemas  morais no texto? Identifique-os.


06) Com relação ao poema “Cilada verbal”, qual dentre as formas enumeradas é incomum para matar um homem? Você acha que essa forma de matar poderia ser o tema, por exemplo, de uma reportagem de jornal? Por quê?


a)    Ainda com relação ao poema, a ausência da palavra também poderia ser letal? Explique.
b)    Relacione o título do poema com o seu conteúdo.


07) A língua é a única linguagem não-verbal, o seu uso revela muito mais do que aparenta mostrar. A análise do texto “Conversinha mineira” nos leva a refletir sobre a capacidade de esconder ou revelar intenções e/ou pensamentos no jogo da comunicação. É possível perceber essa relação no texto? Justifique.

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