sábado, 26 de fevereiro de 2011

APOSTILA DE SOCIOLOGIA E LÍNGUA PORTUGUESA




Nome:_______________________________________________
Nº:________    Turma:____________

SOCIEDADE E LINGUAGEM

Estudo Multidisciplinar (Língua Portuguesa/Sociologia)
Orientações importantes sobre os procedimentos relativos ao trabalho com esta apostila:
1)    Esta apostila deverá ser colada no caderno de Sociologia para as turmas de F a R e no caderno de Português nas turmas de A a E e deve estar respondida a lápis.
2)    Entre os dias 10 a 17 de março (de acordo com a tabela abaixo) você deverá vir ao auditório no período matutino (de 8:00 às 11:00) com o caderno de Sociologia (F  a R) ou Português (A a E), com todas as questões respondidas. O caderno, com as questões resolvidas, funcionará como um “ingresso” para garantir sua entrada no auditório, onde cada questão será debatida por um grupo de professores de forma multidisciplinar.
3)    Os alunos das turmas L a R que não apresentarem as questões desta apostila desenvolvidas no caderno de Sociologia, receberão 2 negativos em Língua Portuguesa correspondentes a tarefa não feita, uma vez que esta atividade apresenta objetivos integrados entre Sociologia e Língua Portuguesa.
1º A
14/03
1º B
14/03
1º C
14/03
1º D
15/03
1º E
15/03
1º F
15/03
1º G 
16/03
1º H
16/03
1º I
16/03









1º J
17/03
1º k
17/03
 1º L
17/03
 1ºM
11/03
1º N
11/03
 1º O
11/03
 1º P
10/03
1º Q
10/03
 1º R
10/03









4)    Após a aula no auditório você deverá corrigir suas questões no caderno e passar suas respostas à caneta.
5)    Após a aula no auditório, você deverá elaborar  uma crônica de sua autoria e um conjunto de 4 perguntas referentes ao conteúdo trabalhado e a ideias de sua crônica (seguindo o modelo da apostila). A orientação será dada em sala pelo professor de Português.
6)    As estratégias de correção e acompanhamento das crônicas variam de acordo com os objetivos de cada professor de LP, assim, se você é aluno do Prof. Fernando esse trabalho deverá ser entregue em uma folha de papel pautado. Se você é aluno do Prof. Cárlinton ou Léia, esse material deverá ser elaborado no caderno
1º Anos CEMTN

Fevereiro de 2011


 
SOCIEDADE E LINGUAGEM
Estudo Multidisciplinar (Língua Portuguesa/Sociologia)
             Os estudos realizados durante as primeiras semanas de aula nas disciplinas de Língua Portuguesa e Sociologia nos remetem a uma profunda reflexão sobre o papel da comunicação nas relações humanas. Diferentemente dos outros animais (seres naturais), os seres humanos são seres sociais, isto é, dependem do outro para aprenderem a se comportar como humanos. Nesse sentido a linguagem assume uma importância distinta entre nós e os animais. Um cachorro se comportará sempre como cachorro, independentemente do meio em que ele estiver inserido. Não importa se após o seu nascimento for criado por humanos ou macacos. Seu comportamento se guiará pelos seus instintos. Um bebê humano, criado por um grupo de cães ou grupo de macacos, assumirá o comportamento desses animais, inclusive assimilando os recursos de linguagens que esses animais utilizam. Enquanto para os animais a linguagem é instintiva e fundamentalmente voltada à sobrevivência da espécie, assumindo um caráter de sociabilidade, para os seres humanos a linguagem assume um papel fundamental em seu processo de socialização.
            Sem linguagem, não há ser humano. Para entendermos a relação do indivíduo com a sociedade, é importante lembrar que a linguagem reúne todos os recursos que nos possibilita a transmissão de ideias, sentimentos e emoções. A língua é um tipo de linguagem, exclusivamente humana, elaborada pelo grupo social e determinada pela cultura desse grupo. O “encontro “ das disciplinas de Sociologia e Língua Portuguesa acontece concretamente, pois os processos de construção das palavras de uma língua envolvem os costumes, as tradições, as relações desse grupo humano com a natureza, etc. Quando cada indivíduo do grupo usa a língua, ele realiza o processo da fala. Como não somos todos iguais, cada um tem a liberdade para selecionar os elementos da língua e usá-los de acordo com as influências que o meio exerce sobre cada indivíduo. É importante ressaltar que, especialmente no Brasil, a “liberdade” do uso da língua está vinculada a uma estrutura de poder que considera, de forma etnocêntrica, o padrão da norma culta como correto, desvalorizando as várias possibilidades de uso da língua  que são válidas e necessárias, como, por exemplo, o que ocorre no primeiro texto apresentado nesse estudo.
            As crônicas, letras de músicas, imagens e fotografias aqui reunidas têm o objetivo de apresentar situações capazes de comprovar que os conceitos  teóricos (estudados nas disciplinas de Língua Portuguesa e Sociologia) podem se transformar em  algo concreto, exemplificado por meio de textos verbais, não-verbais, cômicos, trágicos,  além de abrir caminho para começarmos a entender algumas obras indicadas pelo PAS. Vale, aqui, acrescentar um excelente comentário feito pela aluna Larissa Costa do 1º R em seu blog larissacobrito.wordpress.com/2011/02/] sobre os primeiros conteúdos estudados na escola neste início de ano:

Aproveitando as aulas de hoje…

                Hoje (14 de fevereiro de 2011) no CEMTN  tivemos duas aulas que relataram conteúdos parecidos. Em História trabalhamos o surgimento dos povos e em Língua Portuguesa trabalhamos o surgimento da escrita/comunicação.
               Depois, analisando, podemos ter a hipótese de o que seriam os povos sem a comunicação?
               Primeiro surgiram os povos ,depois a comunicação .Eles tinham de arrumar um jeito de se expressar, começaram com os desenhos na parede, logo depois como os animais fazem ,emitiam sons foram se acostumando e aperfeiçoando o jeito de  se comunicar.
               A comunicação é um meio do ser humano se expressar. O que se comunica é a mensagem e ela pode ser vista, ouvida e tocada. As formas de mensagens podem ser: palavras, gestos, olhares e movimentos do corpo.
              Já pensou o que seria da gente sem a comunicação?
              Na comunicação podemos expressar nossos sentimentos, nos comunicando estamos criando uma forma de viver numa sociedade justa e correta. É só se comunicar.
               Agora uma última pergunta: É possível viver sem comunicação?
               Reflita,Abraços,

NÓIS MUDEMO
(Fidêncio Bogo)

            O ônibus da Transbrasiliana deslizava manso pela Belém-Brasília rumo a Porto Nacional.  Era abril, mês das derradeiras chuvas. No céu, uma luazona enorme pra namorado nenhum botar defeito. Sob o luar generoso, o cerrado verdejante era um presépio, toda poesia e misticismo. Mas minha alma estava profundamente amargurada. O encontro daquela tarde, a visão daquele jovem marcado pelo sofrimento, precocemente envelhecido, a crua recordação de um episódio que parecia tão banal. Tentei dormir. Inútil. Meus olhos percorriam a paisagem enluarada, mas ela nada mais era para mim que o pano de fundo de um drama estúpido e trágico. As aulas tinham começado numa segunda-feira. Escola de periferia. Entre eles, uma criança crescida, quase um rapaz.
            – Por que você faltou esses dias todos?
            – É que nóis mudemo onti, fessora. Nóis veio da fazenda.
Risadinhas da turma.
            – Não se diz "nóis mudemo", menino! A gente deve dizer: nós mudamos, tá?
            – Tá, fessora!
            No recreio, as chacotas dos colegas:
            – Oi, nóis mudemo! Até amanhã, nóis mudemo!
            No dia seguinte, a mesma coisa: risadinhas, cochichos, gozações.
            – Pai, não vô, mais pra escola!
            – Oxente! Módi quê?
Ouvida a história, o pai coçou a cabeça e disse:
            – Meu fio num deixa a escola por uma bobagem dessa! Não liga pras gozações da mininada! Logo eles esquece.
            Não esqueceram. Na quarta-feira, dei pela falta do menino. Ele não apareceu no resto da semana, nem na segunda-feira seguinte. Aí me dei conta de que eu nem sabia o nome dele. Procurei no diário de classe e soube que se chamava Lúcio. Lúcio Rodrigues Barbosa. Achei o endereço. Longe, um dos últimos casebres do bairro. Fui lá, uma tarde. O rapazola tinha partido no dia anterior para a casa de um tio, no sul do Pará.
            – É, professora, meu fio não aguentou as gozação da mininada. Eu tentei fazê ele continuá, mas não teve jeito. Ele tava chatiado demais. Bosta de vida! Eu devia di té ficado na fazenda côa famia. Na cidade nóis não tem veis. Nóis fala tudo errado.
Inexperiente, confusa, sem saber o que dizer, engoli em seco e me despedi. O episódio ocorrera há dezessete anos e tinha caído em total esquecimento, ao menos de minha parte. Uma tarde, num povoado à beira da Belém-Brasília, eu ia pegar o ônibus, quando alguém me chamou. Olhei e vi, acenando para mim, um rapaz pobremente vestido, magro, com aparência doentia.
– O que é, moço? 
– A senhora não se lembra de mim, fessora?
Olhei para ele, dei tratos à bola.
Reconstituí num momento meus longos anos de sacerdócio, digo, de magistério. Tudo escuro.
– Não me lembro não, moço. Você me conhece? De onde? Foi meu aluno? Como se chama? Para tantas perguntas, uma resposta lacônica:
– Eu sou "Nóis mudemo", lembra?
Comecei a tremer.
– Sim, moço. Agora lembro, Como era mesmo seu nome?
– Lúcio.
– Lúcio Rodrigues Barbosa. O que aconteceu com você?
– O que aconteceu? Ah! fessora! É mais fácil dizê o que não aconteceu. Comi  o pão que o diabo amassô. E eta diabo bom de padaria! Fui garimpeiro, fui bóia fria, um "gato" me arrecadou e levou num caminhão pruma fazenda no meio da mata. Lá trabaiei como escravo, passei fome, fui baleado quando consegui fugi. Peguei tudo quanto é doença. Até na cadeia já fui pará. Nóis ignorante às veis fais coisa sem querê fazê. A escola fais uma farta danada. Eu não devia de té saído daquele jeito, fessora, mas não aguentei as gozação da turma. Eu vi logo que nunca ia consegui fala direito. Ainda hoje não sei.
Meu Deus! Aquela revelação me virou pelo avesso. Foi demais para mim. Descontrolada comecei a soluçar convulsivamente. Como eu podia ter sido tão burra e má? E abracei o rapaz, o que restava do rapaz, que me olhava atarantado. O ônibus buzinou com insistência.
– O rapaz afastou-me de si suavemente.
– Chora não, fessora! A senhora não tem curpa.
Como? Eu não tenho culpa? Deus do céu! Entrei no ônibus apinhado. Cem olhos eram cem flechas vingadoras apontadas para mim. O ônibus partiu. Pensei na minha sala de aula. Eu era uma assassina a caminho da guilhotina. Hoje tenho raiva da gramática. Eu mudo, tu mudas, ele muda, nós mudamos, mudamos, mudaamoos, mudaaamooos... Superusada, mal usada, abusada, ela é uma guilhotina dentro da escola. A gramática faz gato e sapato da língua materna, a língua que a criança aprendeu com seus pais e irmãos e colegas – e se torna o terror dos alunos. Em vez de estimular e fazer crescer, comunicando, ela reprime e oprime, cobrando centenas de regrinhas estúpidas para aquela idade. E os lúcios da vida, os milhares de lúcios da periferia e do interior, barrados nas salas de aula: "Não é assim que se diz, menino!" Como se o professor quisesse dizer: "Você está errado! Os seus pais estão errados! Seus irmãos e amigos e vizinhos estão errados! A certa sou eu! Imite-me! Copie-me! Fale como eu ! Você não seja você! Renegue suas raízes! Diminua-se! Desfigure-se! Fique no seu lugar! Seja uma sombra!" E siga desarmado para o matadouro.



                                                        GAROTO LINHA DURA
(Stanislaw Ponte Preta)
           
 Deu-se que o Pedrinho estava jogando bola no jardim e, ao emendar a bola de bico por cima do travessão, a dita foi de contra uma vidraça e despedaçou tudo. Pedrinho botou a bola debaixo do braço e sumiu até a hora do jantar, com medo de ser espinafrado pelo pai.
            Quando o pai chegou, perguntou à mulher quem que­brara o vidro e a mulher disse que foi o Pedrinho, mas que o menino estava com medo de ser castigado, razão pela qual ela temia que a criança não confessasse o seu crime.
             O pai chamou Pedrinho e perguntou:
             - Quem quebrou o vidro, meu filho?
Pedrinho balançou a cabeça e respondeu que não tinha a mínima ideia. O pai achou que o menino estava ainda sob o impacto do nervosismo e resolveu deixar para depois.
Na hora em que o jantar ia para a mesa, o pai tentou de novo:
- Pedrinho, quem foi que quebrou a vidraça, meu filho? - E, ante a negativa reiterada do filho, apelou:
- Meu filhi­nho, pode dizer quem foi que eu prometo não castigar você.
Diante disso, Pedrinho, com a maior cara-de-pau, pigarreou e lascou: 
- Quem quebrou foi o garoto do vizinho.
- Você tem certeza?
             - Juro.
Aí o pai se queimou e disse que, acabado o jantar, os dois iriam ao vizinho esclarecer tudo. Pedrinho concordou que era a melhor solução e jantou sem dar a menor mostra de remorso. Apenas - quando o pai fez ameaça - Pedrinho pensou um pouquinho e depois concordou.
Terminado o jantar o pai pegou o filho pela mão e - já chateadíssimo - rumou para a casa do vizinho. Foi aí que Pedrinho provou que tinha ideias revolucionárias. Virou-se para o pai e aconselhou:
- Papai, esse menino do vizinho é um levado e atrevido des­graçado. Não pergunte nada a ele não. Quando ele vier aten­der a porta, o senhor vai logo tacando a mão nele.
     



       CEDO OU TARDE
(Di Ferrero / Gee Rocha)
 
Quando perco a fé,
Fico sem controle
E me sinto mal, sem esperança
E ao meu redor,
A inveja vai, fazendo
as pessoas se odiarem mais.
Me sinto só,(me sinto só)
Mas sei que não estou (Mas sei que não estou)
Pois levo você no pensamento
Meu medo se vai, (Meu medo se vai)
Recupero a fé, (Recupero a fé,)
E sinto que algum dia
ainda vou te ver
Cedo ou Tarde (Cedo ou Tarde)
Cedo ou tarde
A gente vai se encontrar,
Tenho certeza, numa bem melhor.
Sei que quando canto você pode me escutar.
Você me faz querer viver,
E o que é nosso,
Está guardado
em mim e em você
E apenas isso basta
Me sinto só,(me sinto só)
Mas sei que não estou(Mas sei que não estou)
Pois levo você no pensamento
Meu medo se vai,(Meu medo se vai)
Recupero a fé, (Recupero a fé,
E sinto que algum dia ainda vou te ver
Cedo ou Tarde (Cedo ou Tarde)

Cedo ou tarde
A gente vai se encontrar,
Tenho certeza, numa bem melhor.
Sei que quando canto você pode me escutar.

Cedo ou tarde
A gente vai se encontrar,
Tenho certeza, numa bem melhor.
Sei que quando canto você pode me escutar.





NEGÓCIO DE MENINO COM  MENINA
(Ivan Ângelo)

 O menino, de uns dez anos, pés no chão, vinha andando pela estrada de terra da fazenda com a gaiola na mão. Sol forte de uma hora da tarde. A meni­na, de uns nove anos, ia de carro com o pai, novo dono da fazenda. Gente de São Paulo. Ela viu o passarinho na gaio­la. e  pediu ao pai:
 - Olha que lindo! Compra pra mim?
            O homem parou o carro e chamou:
            - Menino!
            O menino voltou, chegou perto, ca­rinha boa. Parou do lado da janela da menina.                               
            O homem:
            - Esse passarinho é pra vender?                                                                                          
            - Não senhor.
           O pai olhou para a filha com uma cara de deixa pra lá. A filha pediu suave como se o pai tudo pudesse:
            - Fala pra ele vender.
            O pai, mais para atendê-la, apenas intermediário:
            - Quanto você quer pelo passarinho?              
            - Não tou vendendo não senhor.
            A menina ficou decepcionada e se­gredou:
            - Ah, pai, compra.
            Ela não considerava, ou não aprendera ainda, que negócio só se faz quando existe um vendedor e um com­prador. No caso, faltava o vendedor. Mas o pai era um homem de negócios, águia da Bolsa, acostumado a encorajar os mais hesitantes ou a virar a cabeça dos mais recalcitrantes:
            - Dou cem reais.                                 
            - Não senhor.
            - Trezentos reais.                                                                            - Vendo não.
            O homem meteu a mão no bolso, tirou o dinheiro, mostrou cinco notas, irritado.
- Quinhentos reais.
- Não tou vendendo, não, senhor.
 O homem resmungou "que meni­no chato" e falou pra filha:
- Ele não quer vender. Paciência.
A filha, baixinho, indiferente às impossibilidades da transação:
 - Mas eu queria. Olha que boni­tinho.
 O homem olhou a menina, a gaio­la, a roupa encardida do menino, com um rasgo na manga, o rosto vermelho de sol.
             - Deixa comigo.
  Levantou-se, deu meia-volta, foi até lá. A menina procurava intimidade com o passarinho, com o dedinho nas gretas da gaiola. O homem, maneiro, estudando o adversário:
  - Qual é o nome deste passarinho?
  - Ainda não botei nome nele, não. Peguei ele agora.
O homem, quase impaciente:
  - Não perguntei se ele é batizado não, menino. É pardal, é sabiá, é o quê?
              - Aaaah. É bico-de-lacre.
  A menina, pela primeira vez, falou com o menino:
              - Ele vai crescer?
              O menino parou os olhos pretos nos olhos azuis.
  - Cresce nada. Ele é assim mesmo, pequenininho.
  O homem:
              - E canta?
              - Canta nada. Só faz chiar assim.
              - Passarinho besta, hein?
              - É. Não presta pra nada, é só bonito.
              - Você pegou ele dentro da fazenda?
              - É. Aí no mato.
  -Essa fazenda é minha. Tudo que tem nela é meu.
  O menino segurou com mais força a alça da gaiola, ajudou com a outra mão nas grades. O homem achou que estava na hora e falou já botando a mão na gaio­la, dinheiro na outra mão.
  - Dou seiscentos reais, pronto. Toma aqui.
  - Não senhor, muito obrigado.
              O homem, meio mandão:
              - Vende isso logo, menino. Não tá vendo que é pra menina?
              - Não, não tou vendendo não.
              - Mil reais! Toma! - e puxou a gaiola.
 Com mil reais se comprava sacos de feijão, pares de sapatos, uma bicicleta novinha. O menino resis­tiu, segurando a gaiola, voz trêmula.
             - Quero não senhor. Tou vendendo não.
             - Não vende por que, hein? Por quê?
             O menino acuado, tentando explicar:
             - É que eu demorei a manhã todi­nha pra pegar ele e estou com fome e com sede, e queria ter ele  mais um pouquinho. Mostrar pra mamãe.
 O homem voltou para o carro, ner­voso. Bateu a porta, culpando a filha pelo aborrecimento.
  - Viu no que dá mexer com essa gen­te? É tudo ignorante, filha. Vamos embora.
 O menino chegou pertinho da meni­na e falou baixo, para só ela ouvir:
             - Amanhã eu dou ele pra você.
             Ela sorriu e compreendeu.



Fotografias de Sebastião Salgado – Movimento Sem Terra
Sebastião Salgado é um fotógrafo brasileiro reconhecido mundialmente por seu estilo único de fotografar. Nascido em Minas Gerais, é um dos mais respeitados fotojornalistas da atualidade. Nomeado como representante especial do UNICEF em 3 de abril de 2001, dedicou-se a fazer crônicas sobre a vida das pessoas excluídas, trabalho que resultou na publicação de dez livros e realização de várias exposições, tendo recebido vários prêmios e homenagens na Europa e no continente americano. As imagens abaixo foram retiradas do livro “Terra”, dedicado aos milhares
de famílias de brasileiros sem terra que sobrevivem em acampamentos improvisados às margens das rodovias, lutando, na esperança de um dia conquistar um pedaço de terra para produzir e viver com dignidade.






 

JÁ NÃO SE FAZEM PAIS COMO ANTIGAMENTE
(Lourenço Diaféria)


            A grande caixa foi descarregada do caminhão com cuidado. De um lado estava assim: "Frágil". Do outro lado estava escrito "Este lado para cima". Parecia embalagem de geladeira, e o garoto pensou que fosse mesmo uma geladeira. Foi colocada na sala, onde permaneceu o dia  inteiro.   
            À noitinha a mãe chegou, viu a caixa, mostrou-se satisfeita, dando a impressão, que já esperava a entrega do volume.
            O menino quis saber o que era se podia abrir. A mãe pediu paciência, no dia seguinte viriam os técnicos para instalar o aparelho. O equipamento, corrigiu ela, meio sem graça.
            Era um equipamento. Não fosse tão largo e alto, podia-se imaginar um conjunto de som, talvez  um sintetizador. A curiosidade aumentava. À noite o menino sonhou com a caixa fechada.
            Os técnicos chegaram cedo, de macacão. Eram dois. Desparafusaram as madeiras, juntaram as peças brilhantes umas às outras, em meia hora instalaram o boneco, que não era maior do que um homem de estatura mediana.  O filho espiava pela fresta da porta, tenso.
            A mãe o chamou:
 - Filhinho, vem ver o papai que a mamãe trouxe.
 O filho entrou na sala, acanhado diante do artefato estranho: era um boneco, perfeitamente igual a um homem adulto. Tinha cabelos encaracolados, usava desodorante, fazia a barba com gilete ou aparelho elétrico, sorria, bebia uísque, roncava, assobiava, tossia, piscava os olhos – às vezes um de cada vez – assoava o nariz, abotoava o paletó jogava tênis, dirigia carro, lavava  pratos, limpava a casa, tirava o pó dos móveis, acendia a chur­rasqueira, lavava o quintal, estendia roupa,  passava a ferro, engomava camisas, e dentro do  peito tinha um disco que repetia:
 - Já fez a lição? Como vai, meu bem? Ah, estou tão cansado! Puxa, hoje tive um trabalhão dos diabos! Acho que vou ficar até mais tarde no escritório. Você precisava ver o bode que deu lá na firma! Serviço de dono-de-casa  nunca é reconhecido!
  O menino estava boquiaberto. Fazia tem­po que sentia falta do pai, o qual havia dado no pé. Nunca se queixara, porém percebia que a mãe também necessitava de um companhei­ro. E ali estava agora o boneco, com botões, painéis embutidos, registros, totalmente automáticos. O menino entendia agora por que a ­mãe trabalhava o tempo todo, muitas vezes chegando bem tarde. Juntara economias, sabe lá com que sacrifícios, para comprar aquele paizão.
-Ele conta histórias, mãe?
Os técnicos olharam o garoto com indife­rença.
            - Esse é o modelo ZYR-14, mais indica­do para atividades domésticas. Não conta histórias. Mas assiste à televisão. E pode ser acoplado a um dispositivo opcional, que permite longas caminhadas a campos de fute­bol. Sabendo manejá-lo, sem forçar, tem ga­rantia para suportar crianças até seis anos. Porém, não conta histórias, e não convém in­sistir, pode desgastar o circuito do monitor.
 O garoto se decepcionou um pouco, sem demonstrar isso à mãe, que parecia encantada.
  Ligado à tomada elétrica (funcionava também com bateria), o equipamento paterno já havia colocado os chinelos e, sem dizer uma palavra, foi até à mesa e apanhou o jornal.
  A mãe puxou o filho pelo braço:
  - Agora vem, filhinho. Vamos lá para dentro, deixa teu pai descansar.




Grafites – Os Gêmeos


Os Gêmeos é uma dupla de irmãos gêmeos idênticos grafiteiros de São Paulo, nascidos em 1974, cujos nomes reais são Otávio e Gustavo Pandolfo. Formados em Desenho de Comunicação pela Escola Técnica Estadual Carlos de Campos, começaram a pintar grafites em 1987 no bairro em que cresceram, o Cambuci, e gradualmente tornaram-se uma das influências mais importantes na cena paulistana, ajudando a definir um estilo brasileiro de grafite. Os trabalhos da dupla estão presentes em diferentes cidades dos Estados Unidos, Inglaterra, Alemanha, Grécia, Cuba, entre outros países. Os temas vão de retratos de família à crítica social e política; o estilo formou-se tanto pelo “hip hop” tradicional como pela pichação. (fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Os_G%C3%AAmeos)






Pro Dia Nascer Feliz

Todo dia a insônia
Me convence que o céu
Faz tudo ficar infinito
E que a solidão
É pretensão de quem fica
Escondido, fazendo fita

Todo dia tem a hora da sessão coruja
Só entende quem namora
Agora vam'bora
Estamos, meu bem, por um triz
Pro dia nascer feliz
Pro dia nascer feliz
O mundo inteiro acordar
E a gente dormir
Pro dia nascer feliz
Essa é a vida que eu quis
O mundo inteiro acordar
E a gente dormir

Todo dia é dia
E tudo em nome do amor
Essa é a vida que eu quis
Procurando vaga
Uma hora aqui, outra ali
No vai-e-vem dos teus quadris

Nadando contra a corrente
Só pra exercitar
Todo o músculo que sente
Me dê de presente o teu bis
Pro dia nascer feliz
Pro dia nascer feliz
O mundo inteiro acordar
E a gente dormir, dormir

Pro dia nascer feliz
Essa é a vida que eu quis
O mundo inteiro acordar
E a gente dormir







O CASO DO ESPELHO
(Versão de conto popular por Ricardo Azevedo)

            Era um homem que não sabia quase nada. Morava longe, numa casinha de sapé esquecida nos cafundós da mata.
            Um dia, precisando ir à cidade, passou em frente a uma loja e viu um espelho pendurado do lado de fora. O homem abriu a boca. Apertou os olhos.
            Depois gritou. Com o espelho nas mãos:
- Mas o que é que o retrato de meu pai está fazendo aqui?
- Isso é um espelho – explicou o dono da loja.
- Não sei se é espelho ou se não é, só sei que é o retrato do meu pai.
- Os olhos do homem ficaram molhados.
- O senhor...  conheceu meu pai? – perguntou ele ao comerciante.
O dono da loja sorriu. Explicou de novo. Aquilo era só um espelho comum, desses de vidro e moldura de madeira.
            - É não!- respondeu o outro. – Isso é o retrato do meu pai. É ele sim! Olha o rosto dele. Olha a testa. E o cabelo? E o nariz? E aquele sorriso meio sem jeito?
            O homem quis saber o preço. O comerciante sacudiu os ombros e vendeu o espelho, baratinho.
            Naquele dia, o homem que não sabia quase nada entrou em casa todo contente. Guardou cuidadoso o espelho embrulhado na gaveta da penteadeira.
            A mulher ficou só olhando.
            No outro dia, esperou o marido sair para trabalhar e correu para o quarto. Abrindo a gaveta da penteadeira, desembrulhou o espelho, olhou e deu um passo atrás. Fez o sinal da cruz tapando a boca com as mãos. Em seguida, guardou o espelho  na gaveta e saiu chorando.
- Ah, meu Deus! – gritava ela desnorteada. – É o retrato de outra mulher! Meu marido não gosta mais de mim! A outra é linda demais! Que olhos bonitos! Que cabeleira solta! Que pele macia! A diaba é mil vezes mais bonita e mais moça do que eu!
- Quando o homem voltou, no fim do dia, achou a casa toda desarrumada. A mulher, chorando sentada no chão, não tinha feito nem a comida.
- Que foi isso, mulher?
- Ah, seu traidor de uma figa! Quem é aquela jararaca lá no retrato?
- Que retrato? – perguntou o marido, surpreso.
- Aquele mesmo que você escondeu na gaveta da penteadeira!
O homem não estava entendendo nada.
- Mas aquilo é o retrato do meu

pai!
Indignada, a mulher colocou as mãos no peito:
-Cachorro sem-vergonha, miserável! Pensa que eu não sei a diferença entre um velho lazarento e uma jabiraca safada e horrorosa?
A discussão fervia feito  água na chaleira.
- Velho lazarento coisa nenhuma! – gritou o homem, ofendido.
Pablo Picasso, Moça Diante do Espelho, c. 1932
            A mãe da moça morava perto, escutou a gritaria e veio ver o que estava acontecendo. Encontrou a filha chorando feito criança que se perdeu e não consegue mais voltar para casa.
-Que é isso, menina?
-Aquele cafajeste arranjou outra!
            -Ela ficou maluca – berrou o homem, de cara amarrada.
- Ontem eu vi ele escondendo um pacote na gaveta lá do quarto, mãe! Hoje depois que ele saiu, fui ver o que era. Ta lá! É o retrato de outra mulher!
A boa senhora resolveu, ela mesma, verificar tal retrato.
Entrando no quarto, abriu a gaveta, desembrulhou o pacote e espiou. Arregalou os olhos. Olhou de novo. Soltou uma sonora gargalhada.
- Só se for o retrato da bisavó dele! A tal fulana é a coisa mais enrugada, feia, velha, cacarenta, murcha, arruinada, desengonçada, capenga, careca, caduca, torta e desdentada que eu já vi até hoje!
E completou, feliz, abraçando a filha:
            - Fica tranquila! A bruaca do retrato já está com os dois pés na cova.

   




 NO PAÍS DO FUTEBOL
(Carlos Eduardo Novaes)


Juvenal Ouriço aproximou-se de um vendedor parado à porta de uma loja de eletrodomésticos e perguntou:
- Qual desses oito televisores os senhores vão ligar na hora do jogo?
- Qualquer um - disse o vendedor desinteressado.
Qualquer um não. Eu cheguei com duas horas de ante­cedência e mereço uma certa consideração.
- Pra que o senhor quer saber?
- Para já ir tomando posição diante dele.
O vendedor apontou para um aparelho. Juvenal obser­vou os ângulos, pegou a almofada que o acompanha ao Maracanã e sentou-se no meio da calçada.
 - Ei, ei, psssiu - chamou-o um mendigo recostado na parede da loja - como é que é, meu irmão?
- Que foi? - perguntou Juvenal.
- Quer me botar na miséria? Esse ponto aqui é meu.
- Eu não vou pedir esmola.
- Então senta aqui ao meu lado.
- Aí não vai dar para eu ver o jogo.
- Na hora do jogo nós vamos lá pra casa.
- Você tem TV a cores?
          - Claro. Você acha que eu fico me matando aqui pra quê?
Juvenal agradeceu. Disse que preferia ficar na loja onde tinha marcado encontro com uns amigos que não via desde a final da Copa de 78. O mendigo entendeu. E como gostou de Juvenal lhe deu o chapéu onde recolhia esmolas. Juvenal, distraído, enfiou-o na cabeça.
- Não, não. Na cabeça não.
- Por que não?
- Já viu mendigo usar chapéu na cabeça? Deixe-o aí no chão. Sempre pinga qualquer coisa.
Aos poucos o público foi aumentando, operários, ven­dedores, contínuos, vagabundos e às 15h 45m já não havia mais lugar diante das lojas de eletrodomésticos. Os retarda­tários corriam de uma para outra à procura de uma brecha. Alguns ficavam pulando atrás da multidão tentando enxergar a tela do aparelho.
- Quer que eu lhe ajude? - perguntou um cidadão já meio irritado com um contínuo pulando rente às suas costas.
- Quero.
- Então me diz onde é o seu controle da vertical.
- Controle da vertical, pra quê?
Pra ver se você para de pular aqui nas minhas costas.
As lojas concentravam multidões. As calçadas da cida­de, que já são poucas, desapareciam completamente. Em jogos da Seleção Brasileira, durante a semana, cresce bas­tante o número de atropelamentos porque o pedestre é obri­gado a circular pelas ruas. Além disso, os motoristas ficam muito mais ligados no rádio do que no trânsito.
 Na porta da loja onde estava Juvenal havia umas 200 pessoas do lado de fora e somente uma do lado de dentro: o gerente. Até os vendedores da loja já tinham se bandeado afirmando que assistir um jogo atrás da televisão não é a mesma coisa que vê-lo atrás do gol. Quando a bola saía entravam os comentários dos torcedores.
No início do segundo tempo um cidadão que não se interessava por futebol (um dos 18 que a cidade abriga) foi pedindo licença à galera e com muita dificuldade conseguiu entrar na loja. O gerente foi ao seu encontro: "O senhor deseja algo?"
 - Um aparelho de televisão.
 - Por que o senhor não leva aquele?
 - Qual?
 - Aquele que está ligado ali na porta. - É bom?
 - O senhor ainda pergunta? Acha que haveria 200 pessoas diante dele se não tivesse uma boa imagem?
- Bem...
          - E não é só isso - completou o gerente aproveitando a euforia do público com um gol do Brasil - que outro aparelho transmite emoções tão fortes?
- Essa gritaria toda foi diante do aparelho?
          - Lógico. Esse é o novo televisor AP-007 dotado de controle de emoção. Só este televisor pode levá-lo do choro convulsivo à completa euforia.
 - É mesmo? E se eu desejar vê-lo sentado quietinho na poltrona?
 - Também pode, mas é aconselhável desligar o botão da emoção, se não o senhor não vai conseguir ficar quie­tinho na poltrona.
O cidadão convenceu-se. Disse que ia levá-lo. O gerente, precavido, pediu-lhe para ir à porta da loja apanhá­-lo. O cidadão não teve dúvidas. Ignorando aquela massa toda diante do seu aparelho, foi lá tranquilamente e “cleck”.  Desligou-o.
O que aconteceu depois eu deixo por conta da imagi­nação de vocês.


Eu Nasci Há Dez Mil Anos Atrás
(Raul Seixas / Paulo Coelho)
 
-"Um dia, numa rua da cidade
Eu vi um velinho
Sentado na calçada
Com uma cuia de esmola
E uma viola na mão
O povo parou prá ouvir
Ele agradeceu as moedas
E cantou essa música
Que contava uma história
Que era mais ou menos assim:"
Eu nasci!
Há dez mil'anos atrás
E não tem nada nesse mundo
Que eu não saiba demais...(2x)
Eu vi Cristo ser crucificado
O amor nascer e ser assassinado
Eu vi as bruxas pegando fogo
Prá pagarem seus pecados
Eu vi!...
Eu vi Moisés
Cruzar o Mar Vermelho
Vi Maomé
Cair na terra de joelhos
Eu vi Pedro negar Cristo
Por três vezes
Diante do espelho
Eu vi!...
Eu nasci! (Eu nasci!)
Há dez mil'anos atrás
(Eu nasci há 10 mil anos!)
E não tem nada nesse mundo
Que eu não saiba demais...(2x)
Eu vi as velas
Se acenderem para o Papa
Vi Babilônia
Ser riscada no mapa
Vi Conde Drácula
Sugando sangue novo
E se escondendo atrás da capa
Eu vi!...
Eu vi a arca de Noé
Cruzar os mares
Vi Salomão cantar
Seus salmos pelos ares
Eu vi Zumbi fugir
Com os negros prá floresta
Pr'o Quilombo dos Palmares
Eu vi!...
Eu vi o sangue
Que corria da montanha
Quando Hitler
Chamou toda Alemanha
Vi o soldado
Que sonhava com a amada
Numa cama de campanha
Eu li!
Ei li os símbolos
Sagrados de umbanda
Eu fui criança prá
Poder dançar ciranda
Quando todos
Praguejavam contra o frio
Eu fiz a cama na varanda...
Eu nasci! (Eu nasci!)
Há dez mil'anos atrás
(Eu nasci há 10 mil anos atrás!)
E não tem nada nesse mundo
Que eu não saiba demais...(2x)
Não! Não!
Eu tava junto
Com os macacos na caverna
Eu bebi vinho
Com as mulheres na taberna
E quando a pedra
Despencou da ribanceira
Eu também quebrei a perna
Eu também...
Eu fui testemunha
Do amor de Rapunzel
Eu vi a estrela de Davi
Brilhar no céu
E pr'aquele que provar
Que eu tô mentindo
Eu tiro o meu chapéu...



O MELHOR AMIGO
(Fernando Sabino)


A mãe estava na sala, costurando. O menino abriu a porta da rua, meio ressa­biado, arriscou um passo para dentro e mediu cautelosamente a distância. Como a mãe não se voltasse para vê-lo, deu uma corridinha em direção de seu quarto.
            - Meu filho? - gritou ela.
            - O que é - respondeu, com ar mais natural que lhe foi possível.
            - Que é que você está carregando aí? Como podia ter visto alguma coisa, se nem levantara a cabeça? Sentindo-se perdido, tentou ainda ganhar tempo:
             -Eu? Nada...
 - Está sim. Você entrou carregando uma coisa.
 Pronto: estava descoberto. Não adi­antava negar - o jeito era procurar comovê-la. Veio caminhando descon­solado até a sala, mostrou à mãe o que estava carregando:
              - Olha aí, mamãe: é um filhote... Seus olhos súplices aguardavam a decisão.
  - Um filhote? Onde é que você arranjou isso?
  - Achei na rua. Tão bonitinho, não é, mamãe?
  Sabia que não adiantava: ela já cha­mava o filhote de isso. Insistiu ainda:
  - Deve estar com fome, olha só a ca­rinha que ele faz.
  - Trate de levar embora esse cachor­ro agora mesmo!
  - Ah, mamãe... - já compondo uma cara de choro.
  - Tem dez minutos para botar esse bicho na rua. Já disse que não quero ani­mais aqui em casa. Tanta coisa para cui­dar, Deus me livre de ainda inventar uma amolação dessas.
  O menino tentou enxugar uma lá­grima, não havia lágrima. Voltou para o quarto, emburrado: a gente também não tem nenhum direito nesta casa ­pensava. Um dia ainda faço um estrago louco. Meu único amigo, enxotado des­ta maneira!
 - Que diabo também, nesta casa tudo é proibido! - gritou, lá do quarto, e ficou esperando a reação da mãe.
 - Dez minutos - repetiu ela, com firmeza.
 - Todo mundo tem cachorro, só eu que não tenho.
 - Você não é todo mundo.
 - Também, de hoje em diante, eu não estudo mais, não vou mais ao colégio, não faço mais nada.
 - Veremos - limitou-se a mãe, de novo distraída com a sua costura.
 - A senhora é ruim mesmo, não tem coração.
Conhecia bem a mãe, sabia que não haveria apelo: tinha dez minutos para brincar com seu novo amigo, e depois... Ao fim de dez minutos, a voz da mãe, inexorável:
 - Vamos, chega! Leva esse cachorro embora.
 - Ah, mamãe, deixa! - choramingou ainda: - Meu melhor amigo, não tenho mais ninguém nesta vida.
 - E eu? Que bobagem é essa, você não tem sua mãe?
 - Mãe e cachorro não é a mesma coisa.
 - Deixa de conversa: obedece sua mãe.
 Ele saiu, e seus olhos prometiam vingança. A mãe chegou a se preocupar: meninos nessa idade, uma injustiça pra­ticada e eles perdem a cabeça, um recal­que, complexos, essa coisa toda...
 Meia hora depois, o menino voltava da rua, radiante:
 - Pronto, mamãe!
 E lhe exibia uma nota de vinte e uma de dez: havia vendido o seu melhor amigo por trinta dinheiros.
 - Eu devia ter pedido cinquenta, te­nho certeza de que ele dava - murmu­rou, pensativo.



DECLARAÇÃO UNIVERSAL DOS DIREITOS HUMANOS
Adotada e proclamada pela resolução 217 A (III)
da  Assembleia Geral das Nações Unidas em 10 de dezembro de 1948

Preâmbulo

        Considerando que o reconhecimento da dignidade inerente a todos os membros da família humana e de seus direitos iguais e inalienáveis é o fundamento da liberdade, da justiça e da paz no mundo;   
        Considerando que o desprezo e o desrespeito pelos direitos humanos resultaram em atos bárbaros que ultrajaram a consciência da Humanidade e que o advento de um mundo em que os homens gozem de liberdade de palavra, de crença e da liberdade de viverem a salvo do temor e da necessidade foi proclamado como a mais alta aspiração do homem comum;   
        Considerando essencial que os direitos humanos sejam protegidos pelo Estado de Direito, para que o homem não seja compelido, como último recurso, à rebelião contra tirania e a opressão;   
        Considerando essencial promover o desenvolvimento de relações amistosas entre as nações;   
        Considerando que os povos das Nações Unidas reafirmaram, na Carta, sua fé nos direitos humanos fundamentais, na dignidade e no valor da pessoa humana e na igualdade de direitos dos homens e das mulheres, e que decidiram promover o progresso social e melhores condições de vida em uma liberdade mais ampla;
       Considerando que os Estados-Membros se comprometeram a desenvolver, em cooperação com as Nações Unidas, o respeito universal aos direitos humanos e liberdades fundamentais e a observância desses direitos e liberdades; 
        Considerando que uma compreensão comum desses direitos e liberdades é da mais alta importância para o pleno cumprimento desse compromisso;  

A Assembleia  Geral proclama:

        A presente Declaração Universal dos Diretos Humanos como o ideal comum a ser atingido por todos os povos e todas as nações, com o objetivo de que cada indivíduo e cada órgão da sociedade, tendo sempre em mente esta Declaração, se esforce, através do ensino e da educação, por promover o respeito a esses direitos e liberdades, e, pela adoção de medidas progressivas de caráter nacional e internacional, por assegurar o seu reconhecimento e a sua observância universais e efetivos, tanto entre os povos dos próprios Estados-Membros, quanto entre os povos dos territórios sob sua jurisdição.   
Artigo I
        Todas as pessoas nascem livres e iguais em dignidade e direitos. São dotadas de razão  e consciência e devem agir em relação umas às outras com espírito de fraternidade.   
Artigo II
        Toda pessoa tem capacidade para gozar os direitos e as liberdades estabelecidos nesta Declaração, sem distinção de qualquer espécie, seja de raça, cor, sexo, língua,  religião, opinião política ou de outra natureza, origem nacional ou social, riqueza, nascimento, ou qualquer outra condição. 
Artigo III
        Toda pessoa tem direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal.
Artigo IV
        Ninguém será mantido em escravidão ou servidão, a escravidão e o tráfico de escravos serão proibidos em todas as suas formas.   
Artigo V
        Ninguém será submetido à tortura, nem a tratamento ou castigo cruel, desumano ou degradante.
(...)
Artigo IX
        Ninguém será arbitrariamente preso, detido ou exilado. 
(...)  
Artigo XII
        Ninguém será sujeito a interferências na sua vida privada, na sua família, no seu lar ou na sua correspondência, nem a ataques à sua honra e reputação. Toda pessoa tem direito à proteção da lei contra tais interferências ou ataques.
(...)

Artigo XIV
        1.Toda pessoa, vítima de perseguição, tem o direito de procurar e de gozar asilo em outros países.   
        2. Este direito não pode ser invocado em caso de perseguição legitimamente motivada por crimes de direito comum ou por atos contrários aos propósitos e princípios das Nações Unidas.
(...)
Artigo XVII
        1. Toda pessoa tem direito à propriedade, só ou em sociedade com outros.   
        2.Ninguém será arbitrariamente privado de sua propriedade.
Artigo XVIII
        Toda pessoa tem direito à liberdade de pensamento, consciência e religião; este direito inclui a liberdade de mudar de religião ou crença e a liberdade de manifestar essa religião ou crença, pelo ensino, pela prática, pelo culto e pela observância, isolada ou coletivamente, em público ou em particular.
Artigo XIX
        Toda pessoa tem direito à liberdade de opinião e expressão; este direito inclui a liberdade de, sem interferência, ter opiniões e de procurar, receber e transmitir informações e ideias por quaisquer meios e independentemente de fronteiras.
(...)
Artigo XXI
        1. Toda pessoa tem o direito de tomar parte no governo de seu país, diretamente ou por intermédio de representantes livremente escolhidos.  
      2. Toda pessoa tem igual direito de acesso ao serviço público do seu país.   
        3. A vontade do povo será a base  da autoridade do governo; esta vontade será expressa em eleições periódicas e legítimas, por sufrágio universal, por voto secreto ou processo  equivalente que assegure a liberdade de voto.
(...)
Artigo XXV
        1. Toda pessoa tem direito a um padrão de vida capaz de assegurar a si e a sua família saúde e bem estar, inclusive alimentação, vestuário, habitação, cuidados médicos e os serviços sociais indispensáveis, e direito à segurança em caso de desemprego, doença, invalidez, viuvez, velhice ou outros casos de perda dos meios de subsistência fora de seu controle.   
        2. A maternidade e a infância têm direito a cuidados e assistência especiais. Todas as crianças nascidas dentro ou fora do matrimônio, gozarão da mesma proteção social.
Artigo XXVI
        1. Toda pessoa tem direito à instrução. A instrução será gratuita, pelo menos nos graus elementares e fundamentais. A instrução elementar será obrigatória. A instrução técnico-profissional será acessível a todos, bem como a instrução superior, esta baseada no mérito.   
        2. A instrução será orientada no sentido do pleno desenvolvimento da personalidade humana e do fortalecimento do respeito pelos direitos humanos e pelas liberdades fundamentais. A instrução promoverá a compreensão, a tolerância e a amizade entre todas as nações e grupos raciais ou religiosos, e coadjuvará as atividades das Nações Unidas em prol da manutenção da paz.   
        3. Os pais têm prioridade de direito na escolha do gênero de instrução que será ministrada a seus filhos.
Artigo XXX
        Nenhuma disposição da presente Declaração pode ser interpretada como o reconhecimento a qualquer Estado, grupo ou pessoa, do direito de exercer qualquer atividade ou praticar qualquer ato destinado à destruição  de quaisquer dos direitos e liberdades aqui estabelecidos.

Artigo 5º da Constituição Federal Brasileira

Art. 5º. Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes:

I - homens e mulheres são iguais em direitos e obrigações, nos termos desta Constituição;
II - ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude de lei;
III - ninguém será submetido a tortura nem a tratamento desumano ou degradante;
IV - é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato;
V - é assegurado o direito de resposta, proporcional ao agravo, além da indenização por dano material, moral ou à imagem;
VI - é inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e a suas liturgias;
VII - é assegurada, nos termos da lei, a prestação de assistência religiosa nas entidades civis e militares de internação coletiva;
VIII - ninguém será privado de direitos por motivo de crença religiosa ou de convicção filosófica ou política, salvo se as invocar para eximir-se de obrigação legal a todos imposta e recusar-se a cumprir prestação alternativa, fixada em lei;
IX - é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença;
X - são invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas, assegurado o direito a indenização pelo dano material ou moral decorrente de sua violação;
(...)
XIII - é livre o exercício de qualquer trabalho, ofício ou profissão, atendidas as qualificações profissionais que a lei estabelecer;
XIV - é assegurado a todos o acesso à informação e resguardado o sigilo da fonte, quando necessário ao exercício profissional;
XV - é livre a locomoção no território nacional em tempo de paz, podendo qualquer pessoa, nos termos da lei, nele entrar, permanecer ou dele sair com seus bens;
XVI - todos podem reunir-se pacificamente, sem armas, em locais abertos ao público, independentemente de autorização, desde que não frustrem outra reunião anteriormente convocada para o mesmo local, sendo apenas exigido prévio aviso à autoridade competente;
(...)
XXII - é garantido o direito de propriedade;
(...)
XXXII - o Estado promoverá, na forma da lei, a defesa do consumidor;
(...)
XLI - a lei punirá qualquer discriminação atentatória dos direitos e liberdades fundamentais;
XLII - a prática do racismo constitui crime inafiançável e imprescritível, sujeito à pena de reclusão, nos termos da lei;



 
QUESTIONÁRIO:

1 - A língua é o maior patrimônio de um povo. Ela não deveria ser usada como instrumento de discriminação social. Na Crônica “Nós mudemo” a relação LÍNGUA X FALA acaba determinando um tipo de interação entre Lúcio e os outros alunos. Explique:

a) Como essa relação LÌNGUA x FALA está associada ao processo de socialização de Lúcio?
b) Quais foram as consequências  dessa relação?
c) Por que a situação apresentada na crônica jamais aconteceria na natureza?
d) Por que, de acordo com nossos estudos sobre variações linguísticas, Lúcio não poderia ter sido discriminado pela sua fala? Qual deveria ter sido o papel da professora na história de Lúcio.
e) Se abolíssemos totalmente as regras gramaticais, tornaríamos mais fácil a comunicação entre os brasileiros?

2 – Com medo de sofrer uma sanção (ser castigado pelo pai), Pedrinho mente e acusa seu vizinho de quebrar o vidro.  Faça uma análise do comportamento de Pedrinho e de seu pai, considerando os estudos relacionados à ética e à moral que fizemos em sala e explique:
a)    Que relações existem entre a necessidade das sanções (castigos) e o processo de socialização humana? Uma criança deve ser punida como um adulto?
b)    Por que o pai queria ouvir da boca do filho a confirmação do que a esposa havia lhe dito? Até que ponto a criação dos pais influencia na construção do caráter dos filhos?
3-  Considerando os seguintes trechos da música “Cedo ou tarde”:  “...Me sinto só, mas sei que não estou, pois levo você em meu pensamento...”,  “ ...o que é nosso está guardado em mim, em você...” e ...” sei que quando canto você pode me escutar...” explique a relação existente nessas ideias e os conceitos de língua e socialização.

4- Em um determinado momento do texto “Negócio de menina com menino” o homem afirma que o passarinho foi capturado em sua fazenda e tudo o que está em sua fazenda é seu. Já no final do texto o menino revela que dará o passarinho para a menina, apesar de ser considerado “ignorante” pelo homem, já que não aceitou os mil reais pelo pássaro. Nesses dois momentos da crônica podemos perceber claramente a diferença entre atitudes baseadas em princípios éticos e atitudes baseadas em princípios morais. Determine:
a)    Qual das atitudes foi baseada na ética e qual atitude foi baseada na moral e explique as razões de sua escolha.
b)    Na sociedade brasileira quem domina a variação culta da língua se sente superior àqueles que não tiveram acesso ao estudo formal de nossa língua, como ocorreu com Lúcio na história “Nóis Mudemo”.   Que relação existe entre o nervosismo do pai da menina e essa afirmação? Quem é de fato ignorante nessa história?
5 – As fotos de Sebastião Salgado revelam imagens de um grupo de pessoas que vivem um processo de exclusão social, pois sobrevivem em acampamentos sem as mínimas condições, lutando por um pedaço de terra.
a)    O problema dos “Sem terra” no Brasil é um problema ético ou moral? Explique.
b)    É possível  perceber beleza em expressões tão tristes?
c)    Mostre as fotografias do Sebastião Salgado para três pessoas de sua família (em idades diferentes). A reação das pessoas diante das imagens foi a mesma? Após essa experiência, pode-se afirmar que a linguagem verbal e a não verbal funcionam da mesma forma?

6- O texto “Já não se fazem mais pais como antigamente” apresenta uma situação muito comum nas famílias atuais. Analise:
a)    A pergunta do garoto “Ele conta história?” é fundamental para estabelecer a diferença entre um pai humano e um robô. Por que essa pergunta é tão importante? A que processo social (sociabilidade ou socialização) o ato de contar histórias está relacionado? Explique.
b)    Por que as reações da mãe e do filho são diferentes com a chegada do novo pai?
c)    Pesquise a letra da música “Cérebro eletrônico!” de Gilberto Gil e estabeleça as semelhanças entre a crônica e a música.

7 – Os grafites dos “Gêmeos” revelam uma forma de expressão exclusiva da espécie humana: a arte.
a)    A arte então é um elemento de sociabilidade ou de socialização? Explique.
b)    Qual é a diferença entre o grafite, pichação e as pinturas rupestres encontradas nas cavernas feitas por homens há milhares de anos? 
c)    Os grafites dos Gêmeos são capazes de mostrar com cores alegres uma triste realidade. Como isso é possível?

8 – Na música “Pro dia nascer feliz” Cazuza revela que nem sempre a felicidade está em repetir um modelo de comportamento social, como por exemplo, nos trechos:  “... o mundo inteiro acordar e a gente dormir...” “... nadando contra a corrente...” Explique:
a)    Quando a necessidade de romper com o modelo social pode ser feita de forma ética e quando essa necessidade pode trazer problemas de ordem moral. Exemplifique.
b)    “Pro dia nascer feliz” pode significar novas esperanças de alcance da felicidade? Por quê?

9- Ilustramos a crônica “O caso do espelho” com uma obra de Pablo Picasso. Nos dois casos a realidade refletida no espelho depende do ponto de vista de quem o segura. Que relação isso tem com o processo de socialização humana? Como seria a vida em sociedade se todos nós percebêssemos a realidade da mesma forma? Qual a dificuldade que o ser humano tem em  perceber-se, corrigir-se e reconhecer seus próprios defeitos?

10- Considerando o texto “No país do futebol” responda:
a)     Em que momento foi utilizada a onomatopeia no texto? A onomatopeia é uma linguagem verbal ou não verbal? Explique.
b)    Descreva situações que representam o uso da linguagem não verbal em uma partida de futebol.

11- Na letra da música de Raul Seixas, diferentes momentos da história humana são apresentados (fictícios ou não).

a)    Construa uma tabela, separando os fatos reais da História humana daquilo que você considera ficção, mito ou lenda, de acordo com a letra da música.
b)    A construção de uma linha do tempo histórica é uma exclusividade da espécie humana ou os animais também constroem sua própria história? Explique e justifique sua resposta usando os conceitos de linguagem, língua, fala, sociabilidade e socialização.

12- Considerando os estudos sobre ética e moral, faça uma análise dos comportamentos do menino e de sua mãe ao longo da história “O melhor amigo” e explique por que neste caso a amizade cedeu à tentação do dinheiro? Isso é comum na sociedade atual?

13- Fizemos questão de incluir, ao final da apostila, a Declaração Universal dos Direitos Humanos e o Artigo 5º da Constituição do Brasil, para que vocês percebessem que em vários momentos das crônicas, das imagens, das letras das músicas, aqui apresentados, os direitos humanos defendidos nos dois documentos, são feridos/desrespeitados de forma direta ou indireta.
            a) identifique duas passagens, em qualquer dos textos, em que os direitos humanos são desrespeitados, aponte o momento em que eles ocorrem e explique o porquê.

4 comentários:

  1. as questões do aulão tem que ser entregue na próxima aula??

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  2. Todas as questões que já foram corrigidas devem estar à caneta e as que você ainda tem dúvidas devem permanecer a lápis. Na próxima semana o visto será dado na atividade completa.

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  3. Este comentário foi removido pelo autor.

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  4. Obrigado Professor por sua atenção!
    Ate a Próxima semana.
    você é demais

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