terça-feira, 28 de setembro de 2010

NÃO CONSIGO

NÃO CONSIGO
Sou professor e houve uma época em que eu era supervisor e incentivador de treinamentos. Um dia, vivi uma experiência muito instrutiva em uma sala de aula. tomei um lugar vazio no fundo da sala e fiquei assistindo. Todos os alunos estavam trabalhando numa tarefa, preenchendo uma folha de caderno com ideias e pensamentos. Uma aluna de dez anos, mais próxima de mim estava enchendo uma folha de “eu não consigo” “não consigo chutar a bola de futebol além da segunda base”. “não consigo fazer divisões longas com mais de três números”. “não consigo fazer com que a Deby goste de mim”. Caminhei pela sala e notei que todos estavam escreveram o que não conseguiam fazer. “não consigo fazer dez flexões”. “não consigo comer um biscoito só”. A essa altura a atividade despertou minha curiosidade. Decidi verificar com a professora o que estava acontecendo e percebi que ela também estava ocupada escrevendo a lista da “eu não consigo”.
Frustrado em meus esforços para determinar porque os alunos estavam trabalhando com frases negativas ao invés de positivas, voltei para meu lugar e continuei minhas observações. Os alunos escreveram por mais de dez minutos. A maioria encheu sua pagina. Alguns começaram a outra. Depois de algum tempo, foram instruídos a dobrar a folha ao meio e coloca-las numa caixa de sapatos vazia que estava sobre a mesa da professora. Quando todos os alunos haviam colocado a folha na caixa, a professora acrescentou as suas, tampou a caixa, colocou-a embaixo do braço e saiu pela porta do corredor. Os alunos a seguiram. E eu segui os alunos. Logo à frente, a professora entrou na sala do zelador e saiu com uma pá. Depois saiu para o pátio da escola, conduzindo os alunos até o canto mais distante do parquinho. Ali começaram a cava. Iam enterrar seus “não consigo”! Quando a escavação terminou, a caixa de “não consigo” foi depositada no fundo e rapidamente coberta com terra. Trinta e uma crianças de dez e onze anos permaneceram em pé, em torno da sepultura recém-cavada. A professora, então, proferiu louvores. ”Amigos, estamos aqui hoje reunidos para honrar a memória do “não consigo”. Enquanto esteve conosco aqui na terra, ele tocou a vida de todos nós, de alguns mais que de outros. Seu nome infelizmente, foi mencionado em cada instituição publica, escolas, prefeituras, assembleia legislativa e até mesmo na casa branca. Providenciamos um local para seu descanso final. Ele vive na memória de seus irmãos e irmãs “eu consigo” “eu vou” e “eu vencerei”. Que “não consigo” possa descansar em paz e todos os seus presentes possam retomar suas vidas e ir em frente na sua ausência amem.
Ao ouvir a oração, entendi que aqueles alunos jamais esqueceriam a lição. A atividade era simbólica: uma metáfora da vida. O “NÃO CONSIGO” estava enterrado para sempre. Logo após, a sabia professora encaminhou os alunos de volta para classe e promoveu uma festa. Como parte da celebração, ela recortou uma grande lapide de papelão e escreveu as palavras “não consigo” no topo “descanse em paz” no centro e a data abaixo. A lapide de papelão ficou pendurada na sala durante o resto do ano. Nas raras ocasiões em que um aluno esquecia e dizia “não consigo” a professora simplesmente apontava para o cartaz “descanse em paz”. O aluno então, lembrava de que “não consigo” estava morto e reformulava a frase. Eu não era aluno dela. .Ela era minha aluna. Ainda assim, naquele dia aprendi uma lição duradoura com ela. Agora, anos depois, sempre que ouço a frase “não consigo” vejo imagens daquele funeral da quarta serie. Como os alunos, eu também me lembro que “não consigo” esta morto.

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